Patinando com o Alter-Ego

Patinando com o Alter-Ego


2.10.05


# Aqui estou, meus caros! Tenho aproveitado estes dias de paz, enquanto o stronzo do Malatesta está desfrutando férias na Baixada, para relaxar, espanar meu amados livros e dedicar-me aos prazeres mais refinados do espírito: escutar boa música, saborear meus chás de excelente qualidade e... pensar no significado de estar vivo. Não, nada de alta filosofia; apenas aquelas reflexões singelas que nos chegam com as brisas outonais da meia-idade, neste tempinho em que os nomes dos velhos coleguinhas de escola já começam a aparecer no necrológico do Estadão. Morreu Zequinha, que coisa! Ah, que bom, foi desastre! Ana Angélica faleceu? Que linda ela era... Foi crime de morte? Morreu num assalto? Ah, que bom, pensei que tivesse sido morte natural, uffa! Enfim, a meia-idade nos traz medos, é verdade, mas também nos traz alguns sentimentos libertadores. Aprende-se a não esperar grande coisa da vida e das pessoas, conta-se mais consigo mesmo, o que não deixa de ser consolador, pois conhecemos muito bem a nossa capacidade de oferta. De nós mesmos só exigimos o que podemos oferecer, não é fato?
A meia-idade nos traz ainda a redução da velocidade interna, mental e emocional. Os pensamentos já não se atropelam, já não se fantasiam com tantos penachos de esperanças enganosas; as idéias e os sentimentos, antes confusos e arredios, agora abaixam as calças e logo mostram o rego, sem pudores, sem malícias, como quem exibe o traseiro para receber uma injeção, nada mais. Perde-se um guarda-chuva aqui, perde-se uma carteira ali, mas o que se ganha são coisas mais preciosas, como a nítida percepção da comédia humana, principalmente a engraçada pantomima dessa gente que se leva a sério.
Prisão de ventre? Não, não tenho. Então - Ai que bom! - posso apertar a descarga do vaso sanitário, todo santo dia e, simultaneamente, pensar no presidente corrupto, cafona e gabola. Vá, criatura ignorante! Vá, horror federal, deslize suavemente até as águas mortas do Rio Tietê! É uma simples mentalização, eu sei, eu sei, mas oferece algum consolo.
A meia-idade não é triste; é até meio-alegre. E tralalá e tralalá!


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